As melhores músicas do rock desde 1985

Image

 

Éverson Cândido, locutor-símbolo da 89 FM em seus primeiros anos, no primeiro estúdio da rádio, envergando camiseta com o primeiro logotipo da Rádio Rock. Difícil decidir entre o charme das fitas cassete, das cartucheiras ou dos LPs do Walk the West e Fellini de fundo

 

Meu estúdio Tudo Certo Conteúdo Editorial, em parceria com a Tambor Digital está nos finalmentes de um projeto muito legal: o livro contando a história da 89 FM. A Rádio Rock foi um dos eventos mais importantes da história da radiodifusão no Brasil e um marco no processo de profissionalização do rock no país do samba. A volta da emissora ao seu perfil roqueiro, no final de 2012, foi um chacoalhão no meio FM como não víamos, talvez, desde a explosão do “Pânico”. E que tenha dado certo do ponto de vista do ibope e do faturamento publicitário é uma grande esperança para quem acredita que nem tudo na vida é planilha de marketing e consultoria da Booz Allen.

Além do livro (que tem texto meu, iniciado em 2004 e concluído no início de 2013), há uma série de sub-eventos e projetos que bolamos para a rádio. Um deles é o 28 Anos Que Mudaram o Rock, uma mega-eleição aberta ao público com o objetivo de descobrir quais as músicas mais marcantes do período 1985-2013 para o ouvinte da Rádio Rock.

Quanto mais gente participar, mais representativo será o resultado final, e mais fidedigna a lista. Ou seja, ajude a divulgar😉 Para participar, clique no link abaixo, cadastre-se e escolha suas 10 favoritas entre as 25 indicadas. Depois, é só torcer para ganhar um dos ingressos para o Monsters of Rock, Planeta Terra e Summer Break Festival.

Obrigado e boa sorte!

http://radiorock.uol.com.br/site/28anos/login.php

 

O caminhão da mudança chegou

A partir das 7h30 de 04 de junho de 2013, este blogdoricardoalexandre entra em suspensão temporária de suas atividades. A partir de agora, meus novos escritos serão publicados em http://musica.br.msn.com/blog, meu espaço no portal MSN. Bacana, né?

A mudança faz parte de um projeto maior: meu novo livro, que será publicado originalmente em forma de blog, às terças e quintas-feiras no endereço acima. O nome do livro é, desde já, Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar.

Serão 50 capítulos, 50 causos e memórias sobre o período 1993-2008, tentando organizar a história do rock e do pop brasileiro a partir do ponto de vista de um garoto de Jundiaí nos bastidores do showbiz brasileiro.

Curta, compartilhe, leia e comente, que no final do ano os textos serão reunidos e publicados em forma de livro, no papel. É uma experiência nova, espero que vocês gostem.

E, para quem não pescou a referência do título do livro, além da metáfora do fim da indústria do entretenimento, segue uma foto para “explicar”: trata-se do palco (sim, do palco) da banda curitibana Resist Control no festival Juntatribo em Campinas, 1994. Lembra dessa? Vamos lembrar juntos de muitas coisas, então.

Imagem

Saulo Ramos, Paulo Vanzolini e Wilson Simonal

Dois entrevistados nas minhas pesquisas para “Nem vem que não tem: A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” morreram hoje.

Paulo Vanzolini,genial sambista e zoólogo reconhecido, dias antes do meu deadline, deu uma entrevista ao Estadão dizendo que Simonal era, sim, delator, que “todo mundo sabia” o nome dos artistas que o cantor havia delatado ao DOPS durante os anos de chumbo. Imediatamente, procurei Vanzolini, que sustentou sua declaração, embora tenha se queixado de não ter sido informado que as câmeras do Estadão estivessem ligadas. Apesar de prestativo, não soube me dar a informação mais importante: o nome de ao menos um artista que tivesse sido delatado por Simonal. “Não era assim”, ele disse. “Era sempre uma coisa vaga. Mas o meu primo, o radialista Henrique Lobo, com certeza saberia o nome de alguém. Só que ele já morreu. Raul Duarte também saberia. Só que ele também já morreu.”

Saulo Ramos, o jurista, consultor geral da República e ministro do governo de José Sarney, me recebeu em sua enorme casa em Ribeirão Preto. Levei a ele as 600 páginas do processo que condenou Simonal à prisão em 1974 e que começou com o “sequestro e tortura” de seu contador Raphael Viviani três anos antes. Saulo leu, leu, leu, leu tudo atentamente, na minha frente, comentando os trechos mais curiosos até que, num rompante, me perguntou:

“Ricardo, quantos foram os acusados?”
“Cinco, eu respondi. Três policiais, o Simonal e o motorista do Simonal”.
“E quantos foram condenados?”, ele quis saber.
“Três”, eu respondi. “Dois dos policiais menores e o Simonal”.
“E quantos foram pra cadeia?”, ele perguntou.
“Só o Simonal”, eu disse.

“Então ele não era colaborador do regime militar”, Saulo Ramos disse, fechando a pasta com convicção (depois ele reabriria). “Eu GARANTO pra você que um colaborador do regime militar nunca seria preso, nunca seria condenado nem em processo de adultério”.

Um garantia de um lado, outro garantia de outro. Que garantia temos nessa vida? Dois grandes caras, Paulo Vanzolini e Saulo Ramos, que descansem em paz.

Como boatos se transformam em fatos

Durante as pesquisas para meu segundo livro Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal, uma das perguntas que eu deveria responder, era sobre como surgem os boatos. No caso do Simonal, como surgem lendas urbanas baseadas em boatos que foram, um dia, baseados em fatos. Pra quem ainda não leu o livro: em 1971, Simonal foi acusado de haver mandado torturar um ex-funcionário para obter dele uma confissão de desvio de dinheiro. Anos depois, o “fato” que se noticiava, e pelo qual Simonal foi alijado da cultura brasileira, era o de que ele trabalhava para o regime militar, prestando serviço à ditadura delatando outros artistas para que estes fossem torturados e, eventualmente, exilados.

Imagem

Claro que boatos não surgem do nada. O ex-funcionário de Simonal foi torturado nas dependências da polícia política da época, o DOPS. O livro traz declarações e documentos em que o próprio Simonal dava a entender que ele, de alguma maneira nebulosa e jamais explicada, havia “colaborado” com a “revolução” de 1964. Mas daí para ser alcaguete havia uma distância tão grande quanto a que separa o fato do boato.

Nas últimas semanas, eu acompanhei intrigado a “evolução” de duas notícias ligadas ao mundo do entretenimento, e como elas se transformaram a cada nova republicação, a cada novo control+c control+v, em “fatos” cada vez mais assertivos e distantes da notícia original. Acompanhe os monstros se criando:

Imagem

No dia 09 de abril, o produtor Mark Ronson, que está trabalhando em duas ou três faixas do novo álbum de Paul McCartney, deu uma entrevista à revista Rolling Stone tentando tirar a pecha de “retrô” que paira sobre seu nome. Ronson foi DJ na festa de casamento de McCartney em 2011 e contou na entrevista que certo dia no estúdio, o ex-beatle surgiu com algumas “coisas funk-moombahton pós-Bonde do Rolê” e lhe perguntou: “Como você consegue tirar esse tipo de energia do som?” e usou Usher como exemplo do que chamava de “energético”.

No dia seguinte, a notícia saiu no New Musical Express da Inglaterra como “baile-funk e Usher inspiram o novo álbum de Paul McCartney”.

O ClubNME brasileiro puxou a brasa pra sardinha brasileira. Era assim o seu lead: “Quem diria que Paul McCartney está apaixonado pela sonoridade do funk (sim, o carioca!) e do Bonde do Rolê? Mas são essas as influências que Mark Ronson, produtor do novo disco do ex-Beatle, revelou.”

No UOL, a gente descobre que “Paul McCartney está ouvindo funk carioca como inspiração para novo disco”.

O Bonde do Rolê, que nem é carioca, claro, aproveitou a demência coletiva, tirou foto atravessando alguma faixa de pedestre à moda de Abbey Road e ainda produziu um remix de “Get Back” pra provocar.

No dia 13, o amigo Ricardo Schott no jornal O Dia já estava algumas curvas na frente, entrevistando o DJ Sany Pitbull e Mr Catra pedindo dicas para que o velho roqueiro se inteire no movimento do funk carioca. Valeska Popozuda, por exemplo, se ofereceu para levá-lo ao morro do Alemão.

Aí a coisa degringolou. Na Mix TV a notícia era a de que “O produtor Diplo contou para a Rolling Stone que o ex-beatle Paul McCartney chegou em seu estúdio esses dias com uma música do Bonde do Rolê e perguntou: “Como a gente consegue esse tipo de energia?”. Sim, um dos músicos mais aclamados da história do rock estava ouvindo um brasileiríssimo funk”

Àquela altura, alguém já havia lembrado do inacreditável projeto Let it Baile que o não menos inacreditável João Brasil perpetrou em 2010, de mash ups do álbum Let it be com músicas do MC Buiu, Perlla e Deize Tigrona.

Segundo a Caras de alguns dias depois, “Bonde do Rolê conquista Paul McCartney”. Pedro D’Eyrot, do grupo curitibano, declarou: “Me sinto a nova Linda McCartney!”

Não se espante, se depois de tanta loucura, alguém agitar um encontro do ex-beatle com o trio de Curitiba. A farsa, às vezes, se repete como história.

Imagem

A outra notícia mutante é mais séria e envolve a vocalista do grupo Calypso, Joelma. No dia 30 de março, a musa paraense deu uma entrevista à coluna social da revista Época e, entre outras coisas, falou sobre sexualidade: a sua e a dos outros. “Tenho muitos fãs gays, mas a Bíblia diz que o casamento gay não é correto e sou contra”. Acrescenta que, se tivesse um filho nessa situação, “lutaria até a morte para fazer sua conversão”. “Já vi muitos se regenerarem. Conheço muitas mães que sofrem por terem filhos gays. É como um drogado tentando se recuperar”. O título da entrevista foi um tanto malandrinho: “Joelma compara gays a drogados e diz ser contra o casamento homossexual”.

No UOL, a frase virou “gays são como drogados em recuperação”. No dia seguinte à publicação da entrevista à Época, o portal compilou a reação de artistas contrários à cantora paraense.

O coluna “Retratos da Vida” do jornal Extra “contribuiu” com a história: “A nuvem está negra para Joelma e Chimbinha da Banda Calypso. Os pedidos para shows com os astros da música brega despencaram após a mudança de escritório. Abalado, o cantor se consultou com um psiquiatra e iniciou um tratamento com antidepressivos.” O texto ainda dizia que a declaração de Joelma levou problemas ao casamento deles, já que o guitarrista não compartilharia da opinião da cantora.

O ator José de Abreu, no Twitter, declarou que também seria deprimido se tivesse de conviver com Joelma. Me lembrei do exército de cantores e artistas que, nos anos 70, se negavam a subir em um mesmo palco que Simonal porque “não dividiam palco com dedo-duro”. Era uma ótima hora pra todo mundo se mostrar engajado.

A assessoria da banda Calypso imediatamente emitiu comunicado dizendo que as palavras de Joelma foram distorcidas pela Época. Negou a depressão de Chimbinha e os problemas matrimoniais com Chimbinha. Mas no mesmo dia o sempre intrépido jornal Extra trouxe uma “novidade” ao caso de “inferno astral” do grupo paraense: “Filme sobre Calypso sobe no telhado”. Dizia o texto: “A produção do longa-metragem já vinha encontrando dificuldades de levar essa história para a tela, e a situação se agravou com a polêmica em torno das declarações recentes da cantora. O fato é que agora ninguém mais quer vincular o nome à banda, e o projeto tornou-se inviável.” Note a palavra “fato”. A única fonte procurada foi a produtora Vira-lata, que negou o cancelamento do filme. De onde surgiu essa notícia então? Mistério.

Aí a imprensa fez a festa: o Estadão contou que “Depois de Joelma se dizer contra o casamento gay e comparar homossexuais a viciados em drogas, o filme da banda Calypso não será mais realizado “até segunda ordem”. Sem checar a informação, limitou-se a dizer que a fonte era o jornal Extra.

A coisa continuou rolando: no dia 16 de abril o “Blog do Marrom”, ligado ao jornal Correio da Bahia afirmou que a banda Calypso teria sido limada das festas juninas de Jequié, Bahia, devido às “declarações da cantora sobre o casamento gay e os homossexuais em geral”. O “fato” chegaria às raias do insólito, já que, segundo a nota, os paraenses teriam sido substituídos justamente por Daniela Mercury, que, no mesmo período, assumiu publicamente seu relacionamento com uma mulher. Tanto a assessoria de Daniela quanto a do Calypso negaram a “informação” que, no entanto, continua a correr redes sociais como uma libelo contra o preconceito e a homofobia.

Aguardem desdobramentos de ambos os casos.

Ontem falei pessoalmente para o diretor do filme Isto é Calypso, Caco Souza, com um velho instrumento de comunicação chamado telefone. Ele, apesar de ter ligado aos jornais que deram o “furo”, até hoje não sabe de onde surgiu a história do cancelamento do filme. Caco disse que a produção segue em ritmo normal, tão fácil e tão difícil como sempre havia sido, e que a única reação de um dos cotistas já contratados foi um telefonema, confuso com as notícias de que o filme que sua empresa estava apoiando, ter sido cancelado. O cotista ficou aliviado em saber que tudo não passava de mais um boato espalhado pela imprensa brasileira como fato.

Malafaia e C.S. Lewis

malafaia lewis

;

;

;

;

;

;

;

No Facebook, sou alertado pelo Livan Chiroma a respeito do programa de Silas Malafaia do último sábado, 20 de abril. Entre bravatas, “desafios a toda a nação” autopropagandas, televendas de todo tipo, aplausos da plateia para qualquer espirro mais “ungido”, e vários malafaias sendo vendidos em diversos ramos do entretenimento gospel, há o que parece ser um encontro de líderes da Associação Vitória em Cristo. Alguns trechos do sermão:

“Hoje eu levo minha família toda (a hotéis quatro estrelas) e não tô nem aí. Não tô roubando. Não tô nem aí pra você, ô mané, que tá me assistindo (…) Eu não vou deixar de usufruir do lugar vitória porque eu sei o preço que eu paguei e que eu tenho pago”. “Aqui tem três mil pessoas que o hotel e a pensão completa é bancada pelo meu ministério. Quer falar, fale”. “Você quer saber o valor do meu anel? Quatro mil dólares. Com meu dinheiro”. “Tá vendo o Mercedes e500, blindado na Alemanha? Foi um parceiro meu que me deu de presente de aniversário”.

Longe de mim confrontar o célebre comunicador gospel, até porque os que assim o fazem são definidos por ele como “ímpios travestidos de crente”, e não quero essa pecha. Só faria um parêntese para recomendar esse estudo do pastor americano Mark Driscoll a respeito de mordomia cristã. O conceito de “mordomia”, basicamente, defende que o que temos não é nosso – é de Deus, que nos incumbiu de administrar, não para o nosso usufruto, mas de acordo com os interesses do reino dele.

Mas longe de mim dizer que o Malafaia está completamente fora de 2 mil anos de teologia cristã.

Malafaia dispensa opiniões, e seus seguidores parecem ser imunes a elas. Assim, para não desperdiçar meu tempo nem o seu, o que queria é contar uma história a respeito de Clives Staples Lewis (1898/1963) que me veio à mente assistindo aquele espetáculo religioso-televisivo. Lewis, como se sabe, é considerado o maior pensador cristão do século 20, professor da universidade de Oxford, colega de JRR Tolkien, autor da saga Crônicas de Nárnia e de um dos maiores best-sellers de todos os tempos, Cristianismo Puro e Simples.

No livro póstumo Letters to american Lady, de 1967, há uma troca de cartas entre Lewis e uma mulher americana a quem o escritor tentava ajudar financeiramente. Depois de muito insistir, e depois de conseguir achar meios tributários de enviar o dinheiro, finalmente, a mulher aceitou a ajuda, dizendo: “Bem, eu vou aceitar então, e muito obrigada. Não me admira que Deus tenha te abençoado tanto lhe dando tanto dinheiro.”

Lewis não se conteve e respondeu à mulher: “Cuidado com os seus pensamentos em relação a isso. Em nenhum lugar no meu novo testamento eu vejo o dinheiro descrito como uma bênção. Na verdade, Jesus diz algo completamente diferente. Ele fala sobre o engano das riquezas (“mas os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera”, Marcos 4.19). Cristo diz que é quase impossível para um homem rico entrar no reino dos céus (“E, outra vez, vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”, Mateus 19.24). O que você chama de bênção, tem um poder muito maior para destruir. Na verdade, eu preciso te dar este dinheiro, ou ele provavelmente me destruiria. Não olhe para homens com recursos vendo nisso a prova de serem abençoados. Provavelmente, isso é a marca de sua maldição eterna.”

Agradeço ao Senhor porque, se há Silas Malafaia, há também C.S. Lewis, e as trevas de um não conseguem ofuscar o brilho de outro. Pelo contrário, só o reforçam. Como dizia São Francisco de Assis, um único raio de sol já basta para afastar muitas sombras.

Que eu tenha olhos bons para olhar para os exemplos que podem iluminar meu caminho e o caminho dos que estão à minha volta

Chegou a hora de ter saudade

Tem certas horas na vida que a gente deve contar umas novidades sem poder entregar nada.

Por favor, seja condescendente e, em vez de dizer “confuso”, diga “enigmático”.

Dentro de algumas semanas, não muitas, tão poucas quanto o tempo de dois contratos diferentes conversarem entre si, este blog te remeterá ao meu novo livro, um trabalho em progresso com chinfra de colaborativo denominado Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar.

25 semanas, 50 capítulos. Muitas memórias, causos incríveis, muitos amigos, muitos professores, muitos companheiros. Almost Famous versão Brasil dos anos 90.

Quando alguém diz que eu vou ter saudade de ver minhas crianças pulando com os pés sujos no sofá, costumo dizer de volta “Não vejo a hora de ter saudade”.

Profissionalmente, sobre a imprensa musical, os shows, os discos, os estúdios, as redações, os aviões e os hotéis, acho que chegou a hora de ter saudade.

Até chegar esse dia, nos vemos falando sobre o Dias de luta, o livro que puxou todo esse trem. Daqui a pouco, aliás, sigo para a Livraria da Vila celebrar com os amigos seu relançamento.

 

O secretário, o tipo-pastor, a boa religião e a má religião

ww2entry

Aí o cara faz parte de uma igreja muito louca liderada por um guru que diz ser o novo Moisés, ter aberto o oceano atlântico com um cajado e saber desde já os nomes que estão no livro da vida, que nem Jesus.

Aí o cara se candidata a prefeito de Jundiaí, e vai de igreja em igreja porque, né, “irmão vota em irmão”. Não se elege.

Mas aí o cara ganha um cargo de secretário de saúde.

E o que o cara faz? Coloca um tipo-pastor (equivalente religioso ao “tipo Net”) para trabalhar como capelão no maior hospital público da cidade, sem concurso público nem nada, RECEBENDO SALÁRIO DA PREFEITURA.

Repetindo devagar: re-ce-ben-do sa-lá-rio da pre-fei-tu-ra.

Aí o jornal descobre e o secretário diz que, não só vai manter o tipo-pastor no cargo como vai dar sala, mesa e computador, “para fazer seus atendimentos espirituais”. Claro, porque tipo-pastor, em vez de estar junto aos feridos, fica no ar condicionado esperando os interessados.

Aí o prefeito exonera o tipo-pastor e começa o jogo de empurra. O secretário diz que pediu indicação a um conselho de pastores. O tipo-pastor diz que foi indicado pelo próprio secretário. Um dos dois está mentindo. Seja como for, alguém indicou o tipo-pastor como tipo-capelão, sendo que ele só faria um curso de capelania depois da indicação.

O salário era de R$ 2500 por mês.

Eu, que não sei de nada, conheço dezena de pessoas sérias, voluntárias, que sabem apascentar e cuidar dos doentes com amor, espiritualidade não-dogmática, sem proselitismo, ofertando em vez de pedir. Talvez o secretário não conheça. Talvez sua comunidade seja daquelas mais preocupadas com o que Deus pode dar para nós do que com aquilo que nós, em nome de Deus, podemos dar aos necessitados. Pobre secretário. Com isso, ele dá razão aos que querem simplesmente acabar com o serviço de capelania nos hospitais brasileiros.

Cada vez mais, acredito, como Peter Hitchens, que o antídoto para a má religião não é a não-religião, é a boa religião.

A tragicomédia toda está no Jornal de Jundiaí.